Artista, compositor, produtor e fundador da Diamond Music, paulistano construiu trajetória entre o mercado musical, investimentos em direitos autorais e uma nova frente empresarial voltada à valorização de resíduos
A trajetória de Haitam Taleb Smaili foge do roteiro tradicional de quem constrói uma carreira na música. Nascido na Zona Norte de São Paulo, o artista transitou por diferentes áreas da indústria do entretenimento da composição à produção audiovisual, passando pelo rap, direção de clipes e criação de negócios ligados à música. Agora, segundo informações divulgadas pelo próprio empresário, ele direciona parte de sua atuação para um setor distante dos palcos: a transformação de resíduos industriais em produtos de valor econômico.
A mudança de rota não representa, necessariamente, um abandono da música. Ao contrário, ajuda a explicar a característica mais marcante de sua carreira: a capacidade de identificar oportunidades fora dos caminhos convencionais.
Antes de consolidar o nome Haitam no rap, ele chegou a atuar no mercado sertanejo sob o pseudônimo Bruno Villa, período em que participou da composição de músicas gravadas por nomes conhecidos da música brasileira. Entre os trabalhos associados a essa fase estão canções de Matheus & Kauan, Zé Neto & Cristiano, Simone & Simaria e Grupo Pixote. A trajetória foi registrada por veículos como UOL e Terra.
Da composição ao rap nacional

A história de Haitam na música começou antes de sua projeção como intérprete. O profissional também trabalhou com fotografia, produção audiovisual e direção de vídeos, experiência que ampliou sua visão sobre o funcionamento da indústria musical.
Em 2018, ele passou a assumir publicamente o nome Haitam e direcionou sua carreira para o rap. A mudança abriu espaço para trabalhos autorais e colaborações com artistas importantes do gênero.
Entre os projetos de destaque está “Zermatt”, colaboração que reuniu Haitam, Ber, Pedro Qualy, ADL, Thai Flow e outros nomes da cena. Ele também participou de trabalhos com Costa Gold, incluindo “Dás Arábia, Pt. 2”.
A transição ganhou repercussão justamente porque Haitam passou a utilizar a própria identidade como elemento central de sua obra. Sua origem árabe, sua experiência como imigrante de segunda geração e suas referências culturais passaram a fazer parte da narrativa artística.
Em entrevista publicada pelo UOL em 2018, o artista relatou que chegou a utilizar um pseudônimo para conseguir espaço no mercado sertanejo e posteriormente decidiu assumir seu nome de origem árabe.
Um profissional que ultrapassou o palco
O percurso de Haitam não se limita à interpretação. Sua atuação também alcançou a produção e o desenvolvimento de projetos musicais.
Em 2024, o Terra destacou sua trajetória como compositor, produtor e diretor de vídeo, registrando a participação em projetos que, somados, ultrapassariam 1 bilhão de streams. O mesmo levantamento aponta trabalhos com artistas de diferentes segmentos e a participação de Haitam em iniciativas importantes do rap nacional.
Essa multiplicidade de funções ajudou a formar um perfil menos comum na indústria: o de um artista que também compreende produção, imagem, negócios e estratégia.
Foi nesse ambiente que surgiu a Diamond Music, empresa associada à trajetória empresarial de Haitam e utilizada como plataforma para diferentes projetos relacionados ao mercado musical.
Royalties como ativo financeiro
Um dos movimentos mais relevantes de sua carreira empresarial foi aproximar o mercado de direitos autorais da lógica de investimentos.
O modelo parte de uma transformação importante na indústria: músicas não são apenas obras culturais. Catálogos de direitos autorais também podem gerar receitas recorrentes e, quando estruturados de determinadas formas, tornam-se ativos capazes de despertar interesse do mercado financeiro.
A própria trajetória de Haitam passou por essa interseção entre música e finanças, em uma estratégia que ajudou a ampliar a discussão sobre royalties musicais como ativos de investimento.
Essa visão acompanha uma transformação mais ampla da indústria fonográfica, na qual catálogos musicais passaram a ser tratados cada vez mais como ativos econômicos de longo prazo.
Da música à indústria de reciclagem
É na nova frente empresarial, porém, que Haitam apresenta sua mudança mais ousada.
Em materiais divulgados em suas redes sociais, o empresário apresenta um projeto voltado à transformação de resíduos industriais em matéria-prima e produtos de maior valor agregado. A proposta, conforme apresentada, pretende atuar tanto no mercado B2B quanto no B2C.
A iniciativa é descrita como uma operação voltada ao reaproveitamento de resíduos que poderiam ter baixo valor econômico, transformando-os em insumos para novas cadeias produtivas.
O conceito acompanha uma tendência global de economia circular: em vez de tratar determinados resíduos apenas como descarte, transformá-los em recursos capazes de retornar ao processo produtivo.
No Brasil, a discussão tem relevância crescente. O país possui metas e indicadores relacionados à gestão de resíduos e ao consumo e produção responsáveis dentro dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável.
Um novo capítulo fora dos holofotes

A nova fase também chama atenção pelo contraste com a exposição proporcionada pela música.
Haitam construiu parte significativa de sua trajetória em um ambiente de alta visibilidade, cercado por artistas, shows, videoclipes e grandes projetos. Agora, a estratégia apresentada aponta para uma atividade industrial na qual o produto final importa mais do que a imagem pública do empreendedor.
Em suas próprias comunicações, o empresário afirma estar trabalhando com tecnologia voltada ao reaproveitamento de resíduos industriais e projeta uma operação de grande escala.
Entre os números apresentados por ele está a expectativa de transformar 30 mil toneladas de resíduos em produtos com potencial de movimentar até R$ 100 milhões. Por se tratar de projeção empresarial divulgada pelo próprio projeto, o número deve ser entendido como uma estimativa apresentada pelo empreendedor, e não como resultado financeiro auditado.
É justamente nessa diferença entre projeção e resultado que estará um dos principais desafios da nova empreitada.
O empreendedor por trás do artista
A história de Haitam ajuda a compreender por que sua trajetória empresarial não surgiu de uma ruptura completa com a música.
Sua carreira sempre esteve relacionada à identificação de oportunidades. Primeiro como compositor, depois como produtor e artista, posteriormente como empresário e investidor ligado ao mercado musical e, agora, em uma proposta que pretende aproximar tecnologia, indústria e sustentabilidade.
A mudança também revela uma característica cada vez mais presente entre profissionais da economia criativa: a construção de negócios que ultrapassam a atividade artística.
Haitam continua sendo reconhecido como cantor, compositor e produtor. Plataformas como Spotify e Apple Music mantêm sua produção musical disponível, incluindo trabalhos como “All-In”, “Dás Arábia, Pt. 2”, “Zermatt” e lançamentos posteriores.
Mas seu próximo capítulo pode ser escrito longe de um estúdio.
Se a proposta industrial avançar conforme o planejamento apresentado, o empresário poderá transformar uma experiência construída durante anos no entretenimento em uma atuação voltada a um dos maiores desafios da economia contemporânea: dar valor econômico ao que antes era tratado apenas como resíduo.
A trajetória de Haitam, nesse sentido, deixa de ser apenas uma história sobre música. Passa a ser também sobre reinvenção e sobre a tentativa de transformar experiência, capital e visão empresarial em novos negócios.






